As vozes de uma família que já não existe + contexto da fazenda literária (intimidade[s])

Ao folhear um velho álbum com retratos dos meus familiares, escreve Batista, verifico que muitos foram figuras distintas: médicos, administradores, arquitetos, políticos, advogados. A grande maioria morrera cedo demais, como se diz vulgarmente. Aqueles que pregavam o comedimento, morreram de alcoolismo; os que pediam paciência e prudência, morreram numa autoestrada, excesso de velocidade; aqueles que diziam: não fume, isto vai lhe matar!, morreram de cancro de pulmão porque fumavam quatro maços de cigarro por dia. Em criança, continua Batista, em criança não nos damos conta dessas contradições. Os adultos eram os meus heróis. Acontece que também crescemos, amadurecemos, lemos um bocadinho, e aos poucos a coisa toda começa a nos dar nos nervos, percebemos que aqueles a quem escutávamos com tamanha devoção em busca de ensinamentos eram tão humanos e tão falhados como qualquer outro. Um deles chegou mesmo a cometer o suicídio.


Brasília, 27 de novembro, 8h44

A chuva…

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3 comentários sobre “As vozes de uma família que já não existe + contexto da fazenda literária (intimidade[s])

    1. thaysminymarques disse:

      Tu bem sabes que gosto bastante do que escreves.
      Este post remeteu-me a todas as vezes em que estive a olhar álbuns antigos, admirada ou não por minha família e suas escolhas.
      Engraçado, as famílias são diferentes, mas as pessoas parecem as mesmas… Instigante pensar.
      E o segundo momento é exatamente o mesmo que pego-me vivendo após esse momento com fotos.
      A vida continua em busca de algo, seja ele aonde for. E um tanto diferente dos outros, com a poesia.

      Grandes abraços, P.
      És grande!

      Curtido por 1 pessoa

      1. P. R. Cunha disse:

        Poetisa,

        O Stendhal dizia que «todas as famílias são iguais, menos a minha». Podemos nos rodear de robôs & máquinas afins, mas enquanto tivermos dentro da caixa craniana o computador de carne seremos imprevisivelmente humanos. De aí a beleza de se ler romances antigos. O tempo muda, o contexto é lá um bocadinho diferente, as roupas — estranhas. Mas observamos as ações das personagens e ficamos com aquela curiosa sensação de eu teria feito o mesmo.

        Com carinho,

        P.

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